Treinamento Polarizado / Parte 2
- Rodrigo Milazzo
- 14 de jan.
- 4 min de leitura
Impacto no VO2máx e Economia de Trabalho
Considerando a teoria apresentada, é importante apontar as evidências. Dados provenientes de 14 estudos revisados por pares (Nøst HL, Aune MA, van den Tillaar R. The Effect of Polarized Training Intensity Distribution on Maximal Oxygen Uptake and Work Economy Among Endurance Athletes: A Systematic Review. Sports (Basel). 2024 Nov 27;12(12):326.), fornecem evidências necessárias para implementar com confiança uma abordagem polarizada e justificá-la aos atletas que buscam performance. A análise das principais conclusões desta revisão sistemática proporciona uma compreensão clara dos resultados de desempenho associados ao treinamento polarizado:
- Impacto no Consumo Máximo de Oxigênio (VO2máx/VO2pico)
Uma abordagem polarizada é um método eficaz para aumentar o consumo máximo de oxigênio, uma vez que 8 de 10 estudos que mediram essa variável relataram melhorias.
Vários estudos documentaram aumentos estatisticamente significativos, incluindo intervenções com nadadores e corredores. No entanto, é crucial olhar além da significância estatística para o impacto prático: os tamanhos do efeito (a medida do impacto no mundo real) variaram de triviais a grandes. Por exemplo, uma intervenção de mostrou um grande tamanho de efeito, sugerindo um benefício significativo no desempenho, enquanto outras foram mais modestas (nem todas as mudanças estatisticamente significativas têm o mesmo impacto na competição).
Pela análise da composição do treinamento, a revisão de estudos concluiu que uma distribuição com um volume maior de HIT (18-26%) combinado com um volume substancial de LIT (70-80%) parece ser a mais benéfica para alcançar melhorias no VO2máx e no VO2pico.
- Impacto na Economia de Trabalho
O modelo polarizado também demonstra um forte efeito positivo na economia de trabalho. Entre os estudos revisados, 10 mostraram melhorias, com 5 deles encontrando ganhos estatisticamente significativos. Essas melhorias foram observadas em medidas como Economia de Corrida (EC), velocidade/potência a 4 mmol·L−1 (LT4) e o segundo limiar ventilatório (VT2).
A análise sugere que uma distribuição de intensidade diferente é ideal para essas adaptações específicas. Uma distribuição que enfatiza um volume substancial de LIT (80-90%) combinado com uma proporção moderada a alta de HIT (10-20%) parece ser a mais eficaz. A justificativa fisiológica é clara: o alto volume de LIT permite que os atletas pratiquem padrões de movimento específicos do esporte por longos períodos sem fadiga excessiva, permitindo mais repetições da habilidade e levando a movimentos mais econômicos.
Essa evidência fornece um claro direcionamento: para melhorar o VO2máx, priorizar uma porcentagem maior de HIT e, para aprimorar a economia de trabalho, assegurar que o volume de LIT seja substancial - a escolha de distribuição de intensidade deve ser ditada pela principal adaptação objetivada.
Os dados permitem uma precisão tática: se o principal limitador de um atleta for o teto aeróbico, então é aconselhável direcionar um programa de treinamento para a extremidade superior da faixa de HIT (18-26%). Caso o limitador for a eficiência e a resistência à fadiga, então é conveniente aumentar o volume de LIT para a faixa de 80-90%. Este não é um modelo único para todos, pois tem como característica de ser uma estrutura ajustável.

Aplicação Prática: Estruturação de um Programa de Treinamento Polarizado
Para treinadores, traduzir as evidências científicas em princípios acionáveis é essencial. Projetar e implementar um bloco de treinamento polarizado bem-sucedido requer uma abordagem disciplinada para o gerenciamento da intensidade e uma compreensão clara do propósito por trás de cada sessão.
As seguintes diretrizes fornecem um encadeamento estrutural para a elaboração de programas de treinamento polarizado eficazes, visando a performance esportiva:
1. Estabelecer a Distribuição da Intensidade: a base do modelo é a proporção específica de trabalho de baixa e alta intensidade. Um ponto de partida recomendado é 75-85% de LIT combinado com 15-20% de HIT, com monitoramento meticuloso da intensidade do treinamento por meio de frequência cardíaca, potência, ritmo ou lactato, para garantir que atletas sigam as zonas prescritas e evitem entrar na "zona cinzenta" de intensidade moderada;
2. Ancorar o Programa com LIT: o volume substancial de LIT não representa "quilometragem lixo", pois é a base do programa servindo a múltiplos propósitos, tais como construir uma base aeróbica sólida, permitir um volume de treinamento consistente, facilitar a recuperação entre sessões de alta intensidade e possibilitar a prática de movimentos específicos do esporte sem induzir fadiga excessiva;
3. Incorporar Sessões de HIT de Alto Impacto: as sessões de alta intensidade devem ser intencionais, de alta qualidade e separadas por treinos de baixa intensidade para permitir uma recuperação adequada. Essas sessões impulsionam as adaptações cardiovasculares centrais para a melhoria do VO2máx - evidências sugerem que volumes mais altos de HIT, na faixa de 18 a 26% do tempo total de treinamento, são mais benéficos para esse objetivo específico;
4. Minimizar o Treinamento de Intensidade Moderada: O modelo polarizado minimiza deliberadamente o tempo gasto na zona moderada ou "limiar", sendo uma característica definidora que o diferencia de outros modelos. Muitas das intervenções bem-sucedidas revisadas relataram 0-5% de MIT, reforçando o princípio de treinar nos polos do espectro de intensidade.

Finamente, é importante fazer certas considerações sobre as diferentes modalidades esportivas e os diferentes níveis de atletas: uma das descobertas mais convincentes desta revisão sistemática é a ampla aplicabilidade do modelo, uma vez que os efeitos positivos foram observados em uma ampla gama de esportes de resistência, incluindo corrida, ciclismo, natação, triatlo, remo e esqui. Além disso, melhorias foram documentadas em todos os níveis de atletas, desde atletas recreativos até competidores de elite e bem treinados, sugerindo que os princípios fisiológicos subjacentes ao modelo polarizado são universalmente eficazes.
Embora as evidências para aplicação a curto prazo sejam robustas, devem ser consideradas as limitações atuais da pesquisa ao planejar o desenvolvimento de atletas a longo prazo.
Parte 3: Considerações Estratégicas, Limitações e Implementação




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