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Treinamento Polarizado / Parte 2

Impacto no VO2máx e Economia de Trabalho


Considerando a teoria apresentada, é importante apontar as evidências. Dados provenientes de 14 estudos revisados ​​por pares (Nøst HL, Aune MA, van den Tillaar R. The Effect of Polarized Training Intensity Distribution on Maximal Oxygen Uptake and Work Economy Among Endurance Athletes: A Systematic Review. Sports (Basel). 2024 Nov 27;12(12):326.), fornecem evidências necessárias para implementar com confiança uma abordagem polarizada e justificá-la aos atletas que buscam performance. A análise das principais conclusões desta revisão sistemática proporciona uma compreensão clara dos resultados de desempenho associados ao treinamento polarizado:


- Impacto no Consumo Máximo de Oxigênio (VO2máx/VO2pico)


Uma abordagem polarizada é um método eficaz para aumentar o consumo máximo de oxigênio, uma vez que 8 de 10 estudos que mediram essa variável relataram melhorias.


Vários estudos documentaram aumentos estatisticamente significativos, incluindo intervenções com nadadores e corredores. No entanto, é crucial olhar além da significância estatística para o impacto prático: os tamanhos do efeito (a medida do impacto no mundo real) variaram de triviais a grandes. Por exemplo, uma intervenção de mostrou um grande tamanho de efeito, sugerindo um benefício significativo no desempenho, enquanto outras foram mais modestas (nem todas as mudanças estatisticamente significativas têm o mesmo impacto na competição).


Pela análise da composição do treinamento, a revisão de estudos concluiu que uma distribuição com um volume maior de HIT (18-26%) combinado com um volume substancial de LIT (70-80%) parece ser a mais benéfica para alcançar melhorias no VO2máx e no VO2pico.

 

- Impacto na Economia de Trabalho


O modelo polarizado também demonstra um forte efeito positivo na economia de trabalho. Entre os estudos revisados, 10 mostraram melhorias, com 5 deles encontrando ganhos estatisticamente significativos. Essas melhorias foram observadas em medidas como Economia de Corrida (EC), velocidade/potência a 4 mmol·L−1 (LT4) e o segundo limiar ventilatório (VT2).


A análise sugere que uma distribuição de intensidade diferente é ideal para essas adaptações específicas. Uma distribuição que enfatiza um volume substancial de LIT (80-90%) combinado com uma proporção moderada a alta de HIT (10-20%) parece ser a mais eficaz. A justificativa fisiológica é clara: o alto volume de LIT permite que os atletas pratiquem padrões de movimento específicos do esporte por longos períodos sem fadiga excessiva, permitindo mais repetições da habilidade e levando a movimentos mais econômicos.


Essa evidência fornece um claro direcionamento: para melhorar o VO2máx, priorizar uma porcentagem maior de HIT e, para aprimorar a economia de trabalho, assegurar que o volume de LIT seja substancial - a escolha de distribuição de intensidade deve ser ditada pela principal adaptação objetivada.


Os dados permitem uma precisão tática: se o principal limitador de um atleta for o teto aeróbico, então é aconselhável direcionar um programa de treinamento para a extremidade superior da faixa de HIT (18-26%). Caso o limitador for a eficiência e a resistência à fadiga, então é conveniente aumentar o volume de LIT para a faixa de 80-90%. Este não é um modelo único para todos, pois tem como característica de ser uma estrutura ajustável.



Aplicação Prática: Estruturação de um Programa de Treinamento Polarizado


Para treinadores, traduzir as evidências científicas em princípios acionáveis é essencial. Projetar e implementar um bloco de treinamento polarizado bem-sucedido requer uma abordagem disciplinada para o gerenciamento da intensidade e uma compreensão clara do propósito por trás de cada sessão.


As seguintes diretrizes fornecem um encadeamento estrutural para a elaboração de programas de treinamento polarizado eficazes, visando a performance esportiva:


1. Estabelecer a Distribuição da Intensidade: a base do modelo é a proporção específica de trabalho de baixa e alta intensidade. Um ponto de partida recomendado é 75-85% de LIT combinado com 15-20% de HIT, com monitoramento meticuloso da intensidade do treinamento por meio de frequência cardíaca, potência, ritmo ou lactato, para garantir que atletas sigam as zonas prescritas e evitem entrar na "zona cinzenta" de intensidade moderada;


2. Ancorar o Programa com LIT: o volume substancial de LIT não representa "quilometragem lixo", pois é a base do programa servindo a múltiplos propósitos, tais como construir uma base aeróbica sólida, permitir um volume de treinamento consistente, facilitar a recuperação entre sessões de alta intensidade e possibilitar a prática de movimentos específicos do esporte sem induzir fadiga excessiva;


3. Incorporar Sessões de HIT de Alto Impacto: as sessões de alta intensidade devem ser intencionais, de alta qualidade e separadas por treinos de baixa intensidade para permitir uma recuperação adequada. Essas sessões impulsionam as adaptações cardiovasculares centrais para a melhoria do VO2máx - evidências sugerem que volumes mais altos de HIT, na faixa de 18 a 26% do tempo total de treinamento, são mais benéficos para esse objetivo específico;


4. Minimizar o Treinamento de Intensidade Moderada: O modelo polarizado minimiza deliberadamente o tempo gasto na zona moderada ou "limiar", sendo uma característica definidora que o diferencia de outros modelos. Muitas das intervenções bem-sucedidas revisadas relataram 0-5% de MIT, reforçando o princípio de treinar nos polos do espectro de intensidade.



Finamente, é importante fazer certas considerações sobre as diferentes modalidades esportivas e os diferentes níveis de atletas: uma das descobertas mais convincentes desta revisão sistemática é a ampla aplicabilidade do modelo, uma vez que os efeitos positivos foram observados em uma ampla gama de esportes de resistência, incluindo corrida, ciclismo, natação, triatlo, remo e esqui. Além disso, melhorias foram documentadas em todos os níveis de atletas, desde atletas recreativos até competidores de elite e bem treinados, sugerindo que os princípios fisiológicos subjacentes ao modelo polarizado são universalmente eficazes.


Embora as evidências para aplicação a curto prazo sejam robustas, devem ser consideradas as limitações atuais da pesquisa ao planejar o desenvolvimento de atletas a longo prazo.



Parte 3: Considerações Estratégicas, Limitações e Implementação

 
 
 

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